Solidão online
O texto abaixo me inspirou a escrever o post Solidão cibernética?
Estar só não significa solidão
Link excelente e bem sucinto sobre a diferença entre ficar/estar sozinho e solidão.
E o artigo completo. The power of lonely. A-há! Vale a pena ler. Nesses tempos em que você só é alguém se for um 'ser social' 100% do seu tempo, é um refresco para os olhos ler esses textos. Ninguém mais fica sozinho. Ficar/estar sozinho virou uma grande angústia e, principalmente, algo 'demodê'.
Você consegue ler um livro em paz num canto? Consegue ficar de olhos fechados na praia com os plugues do mp3 nas orelhas em paz? Consegue pensar sozinho, em paz, sem inputs externos/alheios?
Começando pelas crianças e jovens: quando foi a última vez que você viu uma criança brincando sozinha? Ou um jovem fazendo alguma atividade sozinho?
Proliferam as babás (não para 'tomar conta', mas para entreter a criança), os animadores (até para adultos!), as companhias rápidas e superficiais.
Ninguém mais fica sozinho. Parece que deprime, gera angústia, ansiedade. Parece ser o fim do mundo.
A primeira lição que tive nesse sentido foi da minha mãe - educadora especializada em estimulação precoce e educação especial. Ela, tão adepta da "estimulação" de bebês e crianças, me disse um dia enquanto eu brincava com o Quase-Lindo, ainda bebê, no chão.
- Fique um pouco afastada, quieta. Deixe-o explorar os brinquedos sozinho. Não interaja o tempo inteiro.
Aquilo me deixou intrigada num primeiro momento, mas aí percebi que, sem a minha orientação constante, ele descobria o mundo sozinho. Encontrava novos usos para brinquedos velhos; montava coisas fora do comum sozinho; pensava sem a minha orientação.
Assim, meus filhos cresceram brincando e gostando de brincar sozinhos. Não que não tivessem amigos. Iam à pracinha todos os dias, interagiam com outras crianças, se divertiam pra caramba. Mas eu sentia claramente que tinha um tempo em que desejavam ficar sozinhos. Ali eles se pareciam muito comigo.
Eu gostava de brincar sozinha. Gostava de ficar a sós com as minhas ideias, os meus pensamentos. Assim como gostava de brincar com as minhas amigas, das bonecas, dos piques, dos jogos. Ainda gosto. E muito. E cada vez mais. Não mais de bonecas e jogos, mas do tempo sozinha para ler, ouvir música, andar, ver um filme, ficar olhando para o teto sem que necessariamente esteja solitária, deprimida, triste e isolada.
É só um tempo para se estar consigo mesmo.
Hoje, no mundo cada vez mais globalizado e dominado pelas redes sociais, me parece que as relações só existem se forem coletivas, globalizadas, interativas. Difícil tomar uma decisão sozinho. Difícil até comprar sozinho. Pensar sozinho. Difícil ficar offline. Difícil deixar o celular largado dentro da bolsa. Difícil dizer que comeu um pedaço de bolo de laranja, que está no lugar x com pessoas y, que assistiu ao filme tal ou até que se está triste (ou alegre, ou apaixonado) sem comunicar a pelo menos três redes sociais, fora msn, skype, sms, mms...
É uma vida com legendas. É preciso traduzir cada momento, comunicar ao mundo a sua existência, interagir, ser interessante e descrever cada golfada de ar que se respira sob pena de perder o contato com os amigos.
É verdade. Eu já perdi amigos para as redes sociais tanto quanto fiz amigos nelas. A segunda parte, muito legal. A primeira, triste, assustadora, incrível, algo que não consigo compreender.
Meu sonho de consumo? Alguns dias no mato, na roça, numa praia tranquila, numa cidade pequena. Já estive em dois lugares onde o celular não funcionava, muito menos internet. Já estive em lugares onde todas as formas de interação "modernas" funcionavam e eu permaneci offline. O nirvana! Momentos de luxo em que vivi o prazer (extremo para mim) de caminhar em silêncio, trocar as palavras que queria com quem estava ao meu lado. Boiar no mar e simplesmente sentir o meu corpo na água e o sol no meu rosto. Sentir o cheiro dos eucaliptos e ouvir os passarinhos sem me sentir compelida a teclar "beija-flor lindo aqui na florzinha, oh!" e anexar uma foto do momento. Luxo? Estar com amigos numa roda de papo e de fato 'estar' com eles. Olhar nos olhos enquanto conversamos. Perceber, assim, o outro. Sem estar com os olhos baixos num iPad, num celular, teclando o exato momento para o resto do mundo saber que, u-hu, tô bem, tô legal, tô cus amigo tudim em volta e sou feliz e amo. Invejo de certa forma quem consegue fazer isso porque eu não tenho essa capacidade de me dividir em duas ou três tarefas concomitantes sem prejudicar uma. Invejo mesmo, com todas as minhas forças, essa capacidade de comunicação (será mesmo?) e de interação (será mesmo?). Invejo a felicidade grupal, a satisfação ilimitada de se estar acompanhado por milhares de pessoas enquanto se toma uma xícara de chá ou molha as plantas. Invejo (e muito) quem consegue lidar com toda essa carga de informações hoje; quem consegue ler 12 jornais, 20 blogs e 36 sites de utilidades (!?) na internet sem pirar. Eu não consigo. Mesmo. A sobrecarga de informações me oprime e me deixa ansiosa, angustiada e até meio deprê. Quanto mais eu sei, mas sei que há coisas a saber.
Eu gosto do contato humano. Mas sem intermediários. Gosto de falar, de ser ouvida e de ouvir. De olhar. De sentir a proximidade das pessoas que têm um nome e saber que eu tenho um também. Gosto do saber, da informação, do conhecimento, mas talvez seja meio 'seletiva' nos meios (e no tempo) que uso para tanto. E talvez ainda preserve o que hoje, cada vez mais, vai morrendo: a individualidade, a intimidade, a privacidade.
Acima de tudo, gosto de um tempo para ficar sozinha. E ter a certeza de que o mundo continua existindo, as pessoas queridas continuam vivas, as coisas continuam existindo "apesar" de mim. Gosto de saber que os amigos, os filhos e os amores ainda e sempre serão os mesmos não importa onde estejam e o que estejam fazendo. Gosto até de sentir falta, de sentir saudade...
Quase egoisticamente, gosto de abrir os olhos pela manhã e ver os bandos de biguás passando e não "precisar" dizer a milhares de pessoas o quanto aquele momento é prazeroso e especial no meu dia. Apenas olhar, apreciar, curtir. É saber que é o "meu" momento. E, como tal, só eu o entendo assim, só eu preciso sabê-lo.
